Bairro da Liberdade


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Romance

História

Romance 'BAIRRO DA LIBERDADE'

Romande de Manuel Martinho, de 1948 'Bairro da Liberdade' 1ª edição
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Romance BAIRRO DA LIBERDADE

Manuel Martinho


Manuel Martinho, foi jornalista e escritor.

Dedicou o seu primeiro romance "Bairro da Liberdade" a José Cândido Godinho, homem que sempre encontrou a seu lado, nas duras jornadas da vida, com o estimulo e com o pão.

Em Janeiro de 1948 escreveria uma carta...



... e agora é tarde, bem sei. O romance está escrito. Pertence-te - é teu.

Muitas vezes me dizias: "a minha vida é um verdadeiro romance!" Pois bem: o "Bairro da Liberdade" é a tua vida, tudo que sofrestes - horas de desventura, horas de desenganos.


E quantos romances não vivem, por aí, inéditos? Tu vencestes. Hoje tens uma alta posição na esfera social. Mas, orgulhosamente, não te esqueceste do teu Bairro. Ainda bem: é que tu veneras mais o trabalho, do que o dinheiro.

Sendo assim, o "Bairro da Liberdade" é uma romagem de saudade para os teus olhos - e, para muitos, um exemplo de tenacidade na luta pela vida.

Aceita um fraterno abraço do amigo,

Manuel Martinho

Lisboa, Janeiro 48

Romance «Bairro da Liberdade» de Manuel Martinho - Janeiro/1948


"Bairro da Liberdade"

Romance

Manuel Martinho / Janeiro de 1948


"Um renque de casinhas baixas, todas iguais, debruava o caminho.

Em frente, entre a lama escorregadia, havia qintais, divididos por arames, onde as galinhas á solta debicavam o chão.

Cada morador tinha ali o seu pedaço de horta, sem guarda de espingarda aperrada ou cão que a guardasse. A riqueza não era muita. Umas couves, canteiros de cheirosa salsa e ervas criadas ao deus dará, por via dos coelhos.

A Câmara não colhia colecta. E, na verdade, o olho industrial ainda não enxergara naqueles terrenos, sedutoras raízes para uma vila de arranha-céus á maneira de Bairro Azul.

Aquilo prestava-se pouco. Bairro da Liberdade, gente de casebres, pegado com Monsanto, vizinhos do Aqueduto, nem de graça se iria para lá. E, no entanto, a encosta da serra começou a povoar-se. vinham famílias sacudidas pela miséria, abrigar-se còmodamente, por cem mil réis de renda. Três cubículos de madeira velha, telhas em cima de vigas que o cair das chuvadas logo apodrecia, portas estreitas onde o gemido, o pranto ou a alegria eram vizinhos da rua - e tudo isto rodeado de um chão barrento, onde os homens, as mulheres e as crianças deixavam marcados os trilhos do seu caminho.

Na cidade, no centro, ninguém lhes dava guarida. Gente pobre, carregada de filhos, enxovalhada na roupa que se traz todos os dias, morar em casas, era uma ousadia dos diabos!

Alfama, Mouraria, Stª Isabel ou Alcântara estavam exigentes. Queriam hóspedes de gravata, de pouca serventia de cozinha e não bandos precatórios de tachos enfarruscados, com crianças de peito. De manhã logo cedo, cada um ia para a sua vida. A mulher de canastra á cabeça comprava na Ribeira o refugo da fruta que depois ia vender á porta dos quartéis, o marido, no cais, expunha aos carregos o pobre corpo de tisíco - e, no quarto, chorando, de mãos pegajosas, as crianças metiam na boca tudo que encontravam, até palha húmida das enxergas. Noite de inverno - e a cidade trancada por dentro. foram muitas noites como essas que fizeram o Bairro da Liberdade. A cidade bania-os - e eles iam, enlameados, como caravela de ciganos, á procura de um buraco. A Estrangeira de Cima estava já adiantada. Barracas bem moldadas, com tectos de zinco, cancelas e água encanada a dois passos. Para os pobres, o Bairro era talvez inacessível. Havia já o luxo do tejolo e, em certas janelas, o craveiro na bilha de barro. Só a serra estava ainda nua. Nas furnas pernoitava a malandragem. Gigões e vadios de navalha, fugidos ao degredo. A polícia vigiava-os e por mais de uma vez, em surtidas, carregou a caminhetas daquela escumalha que ia depois, no primeiro porão, apodrecer em África. Cá em cima ao pé do Aqueduto, havia já meia duzia de barracas. O sítio era bonito. Tinha sol... "

Casas do Bairro

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